Terça-feira, 8 de Julho de 2008

AS SEGADAS

 

Estamos naquela altura do ano em que as segadas eram a actividade predominante no que a culturas se refere. Tenho a certeza que todos nos lembramos dos grandes ranchos de homens e mulheres que andavam pela veiga o dia inteiro a segar o centeio. Cantigas e mais cantigas eram o mote para que o trabalho não se sentisse tão árduo. No final o rancho "confeccionava" o mais bonito ramo de flores e punha o mesmo há porta do patrão. Era o sinal inequívoco que as segadas tinham chegado ao seu final.

Hoje em dia as coisas são muito diferentes e mais fáceis já que os meios mecânicos não só segam como malham e atam o centeio em fardos. Tempos modernos que trazem sempre um pouco de nostalgia para todos aqueles que se lembram perfeitamente do calor infernal que era uma segada.

 

Porem o post de hoje tem dedicatória. O Nosso conhecido e ilustre amigo Luís Fernandes mais conhecido por Luís da Granginha concedeu-nos um belo texto dedicado a Castelões. O mesmo reflecte-se sobre as segadas desde o nascer ao por do sol. Mas para o compreenderem e desfrutarem será mesmo melhor ler, vai de certeza gostar.

 

Dedicatória a CASTELÕES

          “””AS   SEGADAS”””

 

 

 

Madruga-se. Cedo, cedinho. O Sol espreita pela frincha do Brunheiro e a Serra de Mairos. O “rancho” dos Segadores, bicho matado, já está alinhado frente à seara.Seitouras afi(n)adas, o catapaz (capataz) olha pelo rabo do olho para o Tocador de Concertina e dá sinal para a «abertura do concerto».Pelos montes e «abertas» soam as bem afinadas vozes dos Ceifeiros e os bem ritmados acordes do Tocador cantando à Seitoura:

 

“Sega, sega, seitourinha,

Por esta palhinha rala,

Quanto mais devagar ando,

Quanto mais se m’enrazalha”!

 

Montículos de palha começam a ficar espalhados atrás dos Segadores. É hora da entrada dos Atadores.
Com hábeis mãos colhem uma dúzia de palhas, prestidigitam um vencelho, e as Gabelas vão-se alinhando pelo chão ceifado.

 

Os Segadores têm por brio cumprirem a tarefa em «formação ordenada» (em linha). Ai do que fica para trás ou esquece uma palha de centeio por segar! Uma chuva de piadas, maior do que uma chuva de estrelas no céu transmontano de Agosto, desaba sobre o «fraquitote».

Pelas 10 da manhã, criando um preceito que a classe operária adoptaria mais tarde, é servido um ALMOÇO -caldo de chícharros (hum! Quem é, quem é, o maior gulosinho do mundo por este caldinho?!), batatas com bacalhau, pão e vinho, tudo à farta!

 

Mas não há descanso. E, até ao JANTAR, Segadores e Atadores viram costas ao sol  escaldante e seguem em frente à conquista da Seara. 

À uma (1h) nova  - mei-dia” velho - o «ratito» dá sinal, é hora de JANTAR. Um caldo de feijão, carne de reco com batatas, um arrozito de coelho (hum! Minhã, minhã!), pão e vinho, tudo à fartura!

 

Uma sesta curta    -    e regresso à Segada.

Costas dobradas. O Sol queima. O suor escorre. Palha e espigas saltam para o peito e para o pescoço. Picam. Fazem uma comichão danada.

Mas a Seara tem de ser vencida.

 

A meio da tarde, uma pausa para a Merenda. Que bem sabe o Caldo de Vagens! (Quem é, quem é, o maior gulosinho do mundo por este caldinho?!)   - uma boa «entrada» para o «cabrito» ou o «cordeiro» guisados! Pão e vinho, tudo a fartar!

 

O pôr-do-sol dá a Segada do dia por terminada.Derreados de cansaço,erguidos no seu orgulho de homens fortes, valentes e trabalhadores, regressam a casa do “patrão” para um reconfortante convívio condimentado pela CEIA, com tudo a fartar!

As mulheres, heroínas maiores deste Povo, desdobram-se em esforços para terem “tudo prontinho para quando os homens chegarem”! Eles, os homens, Segadores e Atadores, sabem bem a trabalheira que essas generosas têm para os consolar, e, próximo de casa, adivinhando pelo cheirinho espalhado pelo ar os «que bem que me sabe!» que os espera, louvam as mulheres cantando:

 

“Ó senhora cozinheira,

Saia fora para ver,

Venha ver a sua gente,

Para lhe dar de comer”.

 

Mesmo escaldados por esse sol de Verão transmontano, mesmo derreados de cansaço por um trabalho feito derreado, erguem-se para a vida e para o céu, e sentem-se abençoados por aquele luar de Verão transmontano.

Sabem que vão dormir e descansar na "Pousada da Sexta Felicidade"!

   

 

Com apreço e amizade

 

(Luís Fernandes)

 

Luís da Granginha

 

 

 

Obrigado amigo Luís pela participação no nosso blogue que tanto lhe tem despertado o seu interesse. Esperamos no futuro contar com mais textos seus já que deixam água na boca. A foto de hoje ilustra uma área da aldeia ao qual chamamos de Sobreira.

Publicado Por Aldeia de Castelões às 04:03

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3 comentários:
De Afonso Cunha a 13 de Julho de 2008 às 23:21
Agora que o J.Pereira conseguiu comentar um Post do nosso blog, espero que continue a brindar-nos com os seus interessantes comentários.

Como todos nós nos movimentamos em fóruns e blogs da nossa região, a assinatura do J.Pereira ,já nos é familiar.

Obrigado e até breve.

De J. Pereira a 13 de Julho de 2008 às 13:31
Já, por várias vezes, tentei comentar neste post e não consigo. Vou tentar hoje, domingo de manhã para ver se consigo alguma coisa.
As segadas eram o reinício de uma ano de trabalho, que seria continuado palas "acarreijas" e "malhadas" para darem sustento e fartura de pão a uma família.
Os ranchos de segadores eram formados, normalmente nas terras de montanha e iam dar o início da "volta" pela zona onde eu me encontro agora e que é conhecida pela Terra Quente Transmontana, onde o "pão" amadura mais cedo e subiam progressivamente até às alturas da também conhecida "Terra Fria Transmontana".
Alegres e trabalhadores estes ranchos que executavam trabalho de grupo seriam um exemplo para que pretende "trabalhar".
De Afonso Cunha a 8 de Julho de 2008 às 15:47
O amigo Luís está de volta.

Visitante e comentador desde a primeira hora, o Luís da Granjinha, andou, espero que pelos melhores motivos, durante algus tempos, arredado, pelo menos de forma visível, do nosso meio, ao que digo em abono da verdade, já sentia a sua falta.

Porém e depois de já ter, há sua moda, comentado uns posts anteriores, vem hoje presentear-nos com este texto poético que nos ilustra muito bem, um dia de segada, dos muitos que por Castelões e por toda a região se viviam nestes dias calorentos de verão.

As gentes de Stª Maria, terras de Fugaças e Calçado, nem sabem a sorte que tem, por ter um Transmontano puro, como ele, cravado no seu meio.

Gente de sorte...

Até um dia destes, Sr. Luís.

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