Terça-feira, 6 de Outubro de 2009

ERA NO TEMPO

 

"ERA no TEMPO”

Era no tempo em que as nevadas duravam dias e dias a cair, o «caramelo» pendurava-se, tão fascinante quão ameaçador, dos beirais; as chaminés das aldeias fumegavam com mais intensidade do que as chaminés dos altos-fornos siderúrgicos. Era no tempo em quase toda a gente andava com o pingo no nariz, calçava dois pares de carpins; acrescentava mais um ou dois cobertores de lã à cama. Era no tempo em que logo de manhã se matava o bicho com uma boa malga de caldo feito de água bem fervida, acrescentada com umas lágrimas de azeite e umas migalhas de pão; o almoço de couves, feijões ou chícharros, e batatas cozidas a fumegar, enfeitadas com umas pestanas de bacalhau miúdo, regados com um fiozito de azeite e acompanhados com um bom carolo de pão centeio. E a sobremesa da ceia era feita com a oração do Pai-Nosso e Avé – Maria, algumas vezes acrescentada com a reza do Terço. Oubrejadinhas de frio, as crianças lá iam para a Escola, com resignada alegria, alimentada por aquela fé que lhes inculcaram de «quando forem grandes» iriam ter melhor sorte de vida que a dos pais, tios e avós; e com revoltada tristeza, encorajada pela esperança de um dia terem melhores agasalhos e confortos. Era no tempo em que, naquela Aldeia onde o Beça tem nascente, a Teresa “andava de esperanças”, o Afonso com preocupações, e o frio, de enregelar os ossos. A «Gripe asiática», que quase tornara milionário o GUIDE de Montalegre, deixara mazelas, e a Teresa, ao ter «alcançado», enfraqueceu um bocado. Trabalhadeira, empenhada, como são todas as mulheres das faldas do Larouco, esqueceu-se mais de si cuidando mais da fazenda, da cortinha e da casa. Naquele domingo até esteve p’ra nem ir à missa. A Teresa lá se arrastou por aquele manto de neve e juntou-se aos crentes, no santo sacrifício. Quanto mais a saúde lhe fugia mais se lhe aproximava o medo de não «levar avante a gravidez». Adoentada e assustada, Teresa não resistiu aos ritmos do levantar e sentar da cerimónia. Desfalecida, ia para cair, não fora a pronta ajuda da tia Laura e da prima Ana. Recuperada, olhou para a imagem da Santa Maria, padroeira da Aldeia, e logo ali mesmo fez a promessa de que, se o Julinho «vingasse», a pé iria à SRª das NECESSIDADES, do outro lado de lá da Serra de Ardãos, em CASTELÕES, e lá baptizaria o seu filho. Naquele ano a Páscoa foi «baixa», e o nascimento do Julinho até calhou na Semana Santa. A Teresa, o Afonso e os Carvalho de Pedrário (família daTeresa) e os Gonçalves de Sarraquinhos (família do Afonso) nunca tiveram uma PÁSCOA tão FELIZ! Chegou o Primeiro Domingo de Setembro. A Teresa, o Afonso, os Gonçalves, os parentes e os amigos, de Sarraquinhos, madrugaram para passarem no Pedrário, onde iriam apanhar os Carvalho, os parentes e amigos, de Pedrário, que, depois, se juntariam aos compadres e amigos de Meixide, de onde logo atalhariam para CASTELÕES. Sabe-se lá até bem porquê, naquele primeiro domingo de Setembro, CASTELÕES estava apinhadinha de gente. E a Capela da Srª das Necessidades enfeitada como nunca se viu! E até o Sr. Padre fez um Sermão a deixar toda a gente pasmada com a sua eloquência e sábias palavras! O Julinho foi baptizado. E abençoado pelos olhares e murmúrios ternurentos daqueles milhares de devotos, também reconhecidos, ou encomendados, à Srª das Necessidades. Aliviada dos medos e aflições, das dores e do enrijecimento dos ossos, a Teresa declarou-se ouvida nas suas preces por aquela Santa Padroeira de CASTELÕES e chamou-lhe “SENHORA DO ENGARANHO”. A fé dilatou-se pelas redondezas. E este ano nono do século Vinte e Um, lá, vai fazer-se uma Festa de arromba em honra da Padroeira de CASTELÕES. O Santuário está lindo, ajardinado. Os preparativos para o Almoço, a Merenda e o Jantar dos CASTELAMUNENSES até já se adivinham por cá, por estas lonjuras, causando comichão aos cavalos das nossa «marinetes» e, a nós, a fazer-nos crescer água na boca. O Júlio, primo carnal do Julinho, não pára um instante, a reparar se tudo na ALDEIA está em ordem. E a Sandra e o Afonso, de máquinas preparadíssimas para não perderem pitada e regalarem os mirones deste BLOGUE.

 

CASTELÕES, CASTELÕES!...

 

                                                       

                                                           Luís Fernandes

 

 

 

Muito obrigado amigo Luís, por mais um texto seu que temos sempre o maior prazer em postar. Peco-lhe desculpa pelo atraso na sua divulgação e espero poder contar com os seus elaborados textos em honra da nossa pequena mas hospitaleira aldeia.

Publicado Por Aldeia de Castelões às 01:15

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1 comentário:
De Afonso Cunha a 8 de Outubro de 2009 às 17:04
Com colaboradores assim, não necessitamos de redacção.

Obrigado amigo Luís.

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